Crises noturnas: por que algumas pessoas têm crises durante o sono?
Entenda as crises do sono: quais são os efeitos e como combatê-los
As crises noturnas acontecem quando a atividade epiléptica surge predominantemente ou exclusivamente durante o sono. O impacto vai além do episódio em si: afeta o descanso, a qualidade de vida e a saúde geral.1-7
Quem pode desenvolver?
Estima-se que 10% a 15% de todas as epilepsias sejam relacionadas ao sono, ou seja, as crises ocorrem predominantemente durante o período de sono.1 Essas crises podem afetar pessoas de diferentes faixas etárias, embora algumas formas específicas, como a epilepsia hipermotora relacionada ao sono, sejam mais frequentemente diagnosticadas em crianças e adultos jovens.2 O reconhecimento dos sinais é essencial, pois essas condições são frequentemente subdiagnosticadas, justamente porque ocorrem enquanto a pessoa dorme.1-2
Por que as crises acontecem durante o sono?
A relação entre sono e epilepsia é complexa e bidirecional. As crises noturnas ocorrem principalmente durante o sono NREM (sono sem movimento rápido dos olhos), especialmente nos estágios mais leves, quando há maior instabilidade na atividade cerebral.1;3
Fatores que podem desencadear ou agravar as crises noturnas incluem:1-4
• Privação de sono;
• Estresse;
• Alterações na medicação;
• Lesões cerebrais estruturais (tumores, AVC, traumatismos);
• Fatores genéticos.
Estudos recentes demonstram que a regularidade dos horários de dormir e acordar pode ser mais importante do que a duração total do sono para o controle das crises.4 Identificar e controlar esses fatores pode reduzir a frequência das crises.4
Quais são os sinais das crises noturnas?
Muitas vezes, a própria pessoa não percebe que teve uma crise. Os indícios podem ser notados por familiares ou identificados em exames.1-2 Os sintomas incluem:
Sintomas motores
• Espasmos, contrações ou rigidez dos membros;
• Movimentos repetitivos, como mastigar ou engolir;
• Movimentos hipercinéticos (movimentos amplos e complexos);
• Perda do controle da bexiga (enurese noturna);
Sintomas autonômicos
• Alterações na respiração, frequência cardíaca e sudorese;
Sintomas cognitivos
• Confusão ao acordar;
• Medo súbito;
• Desorientação;
• Perda de memória.
Esses episódios comprometem o sono e podem levar a fadiga diurna, sonolência excessiva e dificuldade cognitiva.1-2
Condições associadas
Uma forma específica é a epilepsia hipermotora relacionada ao sono, caracterizada por crises motoras complexas predominantemente noturnas. Essa condição foi renomeada em 2016 (anteriormente chamada de epilepsia do lobo frontal noturna) porque cerca de 30% dos casos têm origem fora do lobo frontal, e as crises estão relacionadas ao sono em si, não ao horário do dia.1-2
Além disso, a epilepsia noturna está frequentemente associada a outros distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva do sono (AOS), que ocorre com frequência duas a três vezes maior em adultos com epilepsia do que na população geral.1;5 A apneia pode agravar o controle das crises, e seu tratamento adequado pode reduzir significativamente a frequência de crises em muitos casos.5-6
Como é feito o diagnóstico?
A investigação exige avaliação médica detalhada e exames específicos, como:1-7
• Eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica cerebral;
• Polissonografia, exame completo do sono que monitora ondas cerebrais, respiração e oxigenação;
• Vídeo-EEG, que combina registro cerebral e gravação em vídeo para capturar crises durante o sono.
A combinação de vídeo-EEG com polissonografia é particularmente útil para diferenciar crises epilépticas de outros eventos noturnos, como parassonias (sonambulismo, terrores noturnos).7
Quais são os riscos?
Quando não tratadas, as crises noturnas podem causar:1
• Privação crônica de sono e fragmentação do sono;
• Fadiga persistente e sonolência diurna;
• Maior risco de lesões físicas;
• Comprometimento cognitivo e de memória;
• Associação com morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP), que ocorre predominantemente durante o sono;
• Associação com outras condições neurológicas e respiratórias.
É possível viver bem com epilepsia noturna?
Sim. O manejo envolve:
• Medicamentos anticrise personalizados para o tipo específico de epilepsia;2
• Regularidade nos horários de sono: manter horários consistentes para dormir e acordar;4
• Tratamento de condições associadas: como apneia do sono com uso de CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas), quando indicado;5-6
• Evitar fatores desencadeantes: como privação de sono, estresse e consumo de álcool;3
• Acompanhamento médico regular: para ajuste de medicações e monitoramento.3
Entender as crises noturnas é essencial para romper o silêncio que muitas vezes cerca esse diagnóstico. Quando identificada e acompanhada corretamente, a epilepsia noturna pode ser controlada, permitindo mais segurança e qualidade de vida.1-7
Referências:
1. Grigg-Damberger M, Foldvary-Schaefer N. Bidirectional Relationships of Sleep and Epilepsy in Adults With Epilepsy. Epilepsy Behav. 2021;116:107735.
2. Kumar J, Solaiman A, Mahakkanukrauh P, Mohamed R, Das S. Sleep Related Epilepsy and Pharmacotherapy: An Insight. Front Pharmacol. 2018;9:1088.
3. Khan S, Nobili L, Khatami R, et al. Circadian Rhythm and Epilepsy. Lancet Neurol. 2018;17(12):1098-1108.
4. Stirling RE, Hidajat CM, Grayden DB, et al. Sleep and Seizure Risk in Epilepsy: Bed and Wake Times Are More Important Than Sleep Duration. Brain. 2023;146(7):2803-2813.
5. Somboon T, Grigg-Damberger MM, Foldvary-Schaefer N. Epilepsy and Sleep-Related Breathing Disturbances. Chest. 2019;156(1):172-181.
6. Vendrame M, Auerbach S, Loddenkemper T, Kothare S, Montouris G. Effect of Continuous Positive Airway Pressure Treatment on Seizure Control in Patients With Obstructive Sleep Apnea and Epilepsy. Epilepsia. 2011;52(11):e168-71.
7. Jain SV, Dye T, Kedia P. Value of Combined Video EEG and Polysomnography in Clinical Management of Children With Epilepsy and Daytime or Nocturnal Spells. Seizure. 2019;65:1-5.