Crises noturnas: por que algumas pessoas têm crises durante o sono?

Entenda as crises do sono: quais são os efeitos e como combatê-los

Publicado em: 24 de fevereiro de 2026  e atualizado em: 2 de março de 2026
  • Para compartilhar
Ouvir o texto Parar o Audio

As crises noturnas acontecem quando a atividade epiléptica surge predominantemente ou exclusivamente durante o sono. O impacto vai além do episódio em si: afeta o descanso, a qualidade de vida e a saúde geral.1-7

Quem pode desenvolver?

Estima-se que 10% a 15% de todas as epilepsias sejam relacionadas ao sono, ou seja, as crises ocorrem predominantemente durante o período de sono.1 Essas crises podem afetar pessoas de diferentes faixas etárias, embora algumas formas específicas, como a epilepsia hipermotora relacionada ao sono, sejam mais frequentemente diagnosticadas em crianças e adultos jovens.2 O reconhecimento dos sinais é essencial, pois essas condições são frequentemente subdiagnosticadas, justamente porque ocorrem enquanto a pessoa dorme.1-2

Por que as crises acontecem durante o sono?

A relação entre sono e epilepsia é complexa e bidirecional. As crises noturnas ocorrem principalmente durante o sono NREM (sono sem movimento rápido dos olhos), especialmente nos estágios mais leves, quando há maior instabilidade na atividade cerebral.1;3

Fatores que podem desencadear ou agravar as crises noturnas incluem:1-4

• Privação de sono;

• Estresse;

• Alterações na medicação;

• Lesões cerebrais estruturais (tumores, AVC, traumatismos);

• Fatores genéticos.

Estudos recentes demonstram que a regularidade dos horários de dormir e acordar pode ser mais importante do que a duração total do sono para o controle das crises.4 Identificar e controlar esses fatores pode reduzir a frequência das crises.4

Quais são os sinais das crises noturnas?

Muitas vezes, a própria pessoa não percebe que teve uma crise. Os indícios podem ser notados por familiares ou identificados em exames.1-2 Os sintomas incluem:

Sintomas motores

• Espasmos, contrações ou rigidez dos membros;

• Movimentos repetitivos, como mastigar ou engolir;

• Movimentos hipercinéticos (movimentos amplos e complexos);

• Perda do controle da bexiga (enurese noturna);

Sintomas autonômicos

• Alterações na respiração, frequência cardíaca e sudorese;

Sintomas cognitivos

• Confusão ao acordar;

• Medo súbito;

• Desorientação;

• Perda de memória.

Esses episódios comprometem o sono e podem levar a fadiga diurna, sonolência excessiva e dificuldade cognitiva.1-2

Condições associadas

Uma forma específica é a epilepsia hipermotora relacionada ao sono, caracterizada por crises motoras complexas predominantemente noturnas. Essa condição foi renomeada em 2016 (anteriormente chamada de epilepsia do lobo frontal noturna) porque cerca de 30% dos casos têm origem fora do lobo frontal, e as crises estão relacionadas ao sono em si, não ao horário do dia.1-2

Além disso, a epilepsia noturna está frequentemente associada a outros distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva do sono (AOS), que ocorre com frequência duas a três vezes maior em adultos com epilepsia do que na população geral.1;5 A apneia pode agravar o controle das crises, e seu tratamento adequado pode reduzir significativamente a frequência de crises em muitos casos.5-6

Como é feito o diagnóstico?

A investigação exige avaliação médica detalhada e exames específicos, como:1-7

• Eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica cerebral;

• Polissonografia, exame completo do sono que monitora ondas cerebrais, respiração e oxigenação;

• Vídeo-EEG, que combina registro cerebral e gravação em vídeo para capturar crises durante o sono.

A combinação de vídeo-EEG com polissonografia é particularmente útil para diferenciar crises epilépticas de outros eventos noturnos, como parassonias (sonambulismo, terrores noturnos).7

Quais são os riscos?

Quando não tratadas, as crises noturnas podem causar:1

• Privação crônica de sono e fragmentação do sono;

• Fadiga persistente e sonolência diurna;

• Maior risco de lesões físicas;

• Comprometimento cognitivo e de memória;

• Associação com morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP), que ocorre predominantemente durante o sono;

• Associação com outras condições neurológicas e respiratórias.

É possível viver bem com epilepsia noturna?

Sim. O manejo envolve:

• Medicamentos anticrise personalizados para o tipo específico de epilepsia;2

• Regularidade nos horários de sono: manter horários consistentes para dormir e acordar;4

• Tratamento de condições associadas: como apneia do sono com uso de CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas), quando indicado;5-6

• Evitar fatores desencadeantes: como privação de sono, estresse e consumo de álcool;3

• Acompanhamento médico regular: para ajuste de medicações e monitoramento.3

Entender as crises noturnas é essencial para romper o silêncio que muitas vezes cerca esse diagnóstico. Quando identificada e acompanhada corretamente, a epilepsia noturna pode ser controlada, permitindo mais segurança e qualidade de vida.1-7

Referências:

1. Grigg-Damberger M, Foldvary-Schaefer N. Bidirectional Relationships of Sleep and Epilepsy in Adults With Epilepsy. Epilepsy Behav. 2021;116:107735.
2. Kumar J, Solaiman A, Mahakkanukrauh P, Mohamed R, Das S. Sleep Related Epilepsy and Pharmacotherapy: An Insight. Front Pharmacol. 2018;9:1088.
3. Khan S, Nobili L, Khatami R, et al. Circadian Rhythm and Epilepsy. Lancet Neurol. 2018;17(12):1098-1108.
4. Stirling RE, Hidajat CM, Grayden DB, et al. Sleep and Seizure Risk in Epilepsy: Bed and Wake Times Are More Important Than Sleep Duration. Brain. 2023;146(7):2803-2813.
5. Somboon T, Grigg-Damberger MM, Foldvary-Schaefer N. Epilepsy and Sleep-Related Breathing Disturbances. Chest. 2019;156(1):172-181.
6. Vendrame M, Auerbach S, Loddenkemper T, Kothare S, Montouris G. Effect of Continuous Positive Airway Pressure Treatment on Seizure Control in Patients With Obstructive Sleep Apnea and Epilepsy. Epilepsia. 2011;52(11):e168-71.
7. Jain SV, Dye T, Kedia P. Value of Combined Video EEG and Polysomnography in Clinical Management of Children With Epilepsy and Daytime or Nocturnal Spells. Seizure. 2019;65:1-5.

Este material tem caráter meramente informativo. Não deve ser utilizado para realizar autodiagnóstico ou automedicação. Em caso de dúvidas, consulte sempre seu médico.
  • Para compartilhar
Você achou esse conteúdo útil?